Sobre sucessão
E o risco de key person em gestoras independentes
Meus doces, bom dia.
Na obra realista “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, de Machado de Assis, o autor - o próprio Brás Cubas - conta, numa narrativa post mortem, sobre sua vida.
Brás Cubas é um personagem um tanto particular. Medíocre, porém com uma autoestima inabalável, fala sobre uma vida sem feitos relevantes com uma leveza um tanto perturbadora. Charmoso, porém sem substância, Brás Cubas é bem relacionado, frequenta os lugares certos e conhece as pessoas certas. É uma pessoa que mais parece do que é, e mantém seu prestígio porque está em lugares que favorecem essa postura performática.
Tentou realizar o sonho do seu pai de emplacá-lo numa carreira política. Não vingou.
Escreveu para um jornal por um tempo. Desistiu.
Teve um breve cargo público. Não teve sucesso.
Passou boa parte da vida obcecado com um emplasto anti-hipocondríaco que seria sua grande tese de sucesso. E culpou “o acaso” pelo seu fracasso.
“Divino emplasto, tu me darias o primeiro lugar entre os homens, acima da ciência e da riqueza, porque eras a genuína e direta inspiração do céu. O acaso determinou o contrário.”
A despeito disso tudo, quando observa sua vida em retrospecto, compensa sua irrelevância com um elemento de sorte:
“Não alcancei a celebridade do emplasto, não fui ministro, não fui califa, não conheci o casamento. Verdade é que, ao lado dessas faltas, coube-me a boa fortuna de não comprar o pão com o suor do meu rosto.”
Para o interlocutor, parece que ele acredita que saiu ‘no zero a zero’ de uma vida morna e superficial. Então, o final subverte nossa expectativa com brutal honestidade e consciência:
“E imaginará mal; porque ao chegar a este outro lado do mistério, achei-me com um pequeno saldo, que é a derradeira negativa deste capítulo de negativas: Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria.”
Há algo nessa frase que me ocupa quando penso no mercado de fundos brasileiro.
No segmento de asset management no Brasil, vemos, depois de vários anos, algumas empresas associadas a ‘key persons’. O chamado one man show.
Veja, não quero dizer que o legado que se transmite é um problema - diferente da trágica análise de Brás Cubas no capítulo “Das Negativas” - , como quem diz que uma empresa fracassaria com a saída de uma key person. Quero dizer que a incapacidade de transmitir qualquer coisa, boa ou não, é um problema ainda maior.
Brás Cubas não criou nada que pudesse sobreviver à sua própria existência. Não formou ninguém. Não deixou processo, método,e sua única tese de investimentos (o emplasto) foi com ele para o túmulo.
Muitas das gestoras com key persons não são como Brás Cubas. Tiveram resultado real. Isso não é como a vaidade descabida e autoimagem idealizada do personagem. É mérito de geração de alpha.
Há um tempo, uma gestora de muito renome e prestígio (com uma key person também muito renomada e prestigiosa, um verdadeiro ‘ganhador de dinheiro’) recebeu uma oferta por um stake de 50%. Haverá uma saída planejada, feita de forma gradual e muito inteligente.
A pergunta aqui não é sobre essa aquisição em específico, mas sobre tantas outras gestoras com key person risk: o que acontece, exatamente, quando aquela pessoa não estiver mais lá? Quais gestoras independentes fundiram uma personalidade com sua marca?
Esta é uma pergunta que nem Brás Cubas soube responder.
E a questão de sucessão em muitas gestoras é o espelho do capítulo “Das Negativas”.
Transmitir um legado é sobreviver à sua própria existência.
Um gestor que não transmite nada — nem o método, nem a cultura, nem os analistas formados para pensar por conta própria — pode ter entregado retornos extraordinários durante décadas. Mas ao chegar ao “outro lado do mistério”, vai encontrar exatamente o que Brás Cubas encontrou: um pequeno saldo, e a derradeira negativa.
O emplasto morreu com ele.
A questão que fica — e que nenhum prospecto responde — é quantas gestoras hoje sabem, honestamente, a diferença entre as duas coisas.
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Clara Sodré


Ótimo ponto pra discussão. Eu atribuo isso ao excesso de "skin in the game" pq na medida q o diferencial do profissional passa a se concentrar exclusivamente em instintos e sentimentos subjetivos, deixa-se de ter um modo de pensar replicável que permita que a aplicação do método dependa, esse sim, das qualidades individuais e intransferíveis. Não há uma "escola" a ser seguida e fica "só" o individual. Substitua na passagem do Keynes a palavra "teoria econômica" por uma q trate qualquer profissional de finanças e a conclusão é parecida: "a teoria econômica não fornece um corpo de conclusões assentadas e imediatamente aplicáveis à política. Ela é um método em vez de uma doutrina, um aparato da mente, uma técnica de pensamento, que ajuda o seu possuidor a extrair conclusões corretas."
Texto maravilhoso, Clair. Muito ego e pouco legatus.