Sobre voltar ao jogo
8 lições de vida e trabalho da história do BTG Pactual, retiradas do "De Volta ao Jogo", de Ariane Abdallah
Meus doces, bom dia.
Há duas semanas, foi lançado o livro “De Volta ao Jogo” (da expressão back to the game, que vocês já devem ter ouvido nos corredores da Faria Lima ser o significado não-oficial do acrônimo BTG), escrito por Ariane Abdallah.
O livro conta a história do banco desde sua fundação em 1978, passando pela trajetória de Luiz Cezar Fernandes, bem como o ingresso e ascensão de André Esteves no banco, anedotas de diversos sócios e ex sócios, além de cultura, valores e alguns acontecimentos relevantes que levaram o banco a ter o porte e estrutura de hoje.
Encontrei, enquanto fazia essa leitura, ensinamentos que julguei interessantes (alguns mais, outros menos convencionais) e dignos de serem compartilhados. Acredito muito que a leitura pode nos fazer refletir e aprender sobre erros e acertos sem ter que, necessariamente, vivê-los - o que se torna uma vantagem, de alguma maneira. Me deixem saber, como sempre, o que faz sentido e o que não faz, seja comentando ou me respondendo o e-mail. Adoraria saber a opinião de vocês a respeito.
1- Não leve nada para o pessoal (mesmo quando pareça ser)
Em 2006, Luiz Cezar deu uma emblemática entrevista à Revista Piauí (intitulada “De elefante a formiga”), onde disse que o chairman/sócio sênior do BTG Pactual, André Esteves, “havia sido dinâmico e atuante, mas venderia até a mãe para ter o poder”. Quatro anos depois, num certo prédio icônico da Faria Lima, ambos se reuniram a pedido de Cezar, que pediu ajuda para que sua casa (uma fazenda de 2,5mi de m² em Petrópolis, famosa pela arquitetura e pelas festas suntuosas) não fosse a leilão. A despeito da relação tensa e desgastada com o ex-chefe, Esteves observou a proposta - avaliando riscos e oportunidades - e comprou o crédito, deixando que Luiz Cezar continuasse morando na fazenda.
2- O conselho de Simonsen a Paulo Guedes
Quando abordado por Luiz Cezar para uma potencial sociedade, Paulo Guedes pediu um conselho para seu ex-professor e mentor, Mário Henrique Simonsen, sobre fazer a transição do mundo acadêmico para o empresarial. A resposta de Simonsen foi:
“No primeiro terço da vida, dedique-se a adquirir conhecimento, estude muito. Isso você já fez. No segundo terço, busque independência, conforto, fique rico. No último terço, você leva sua experiência para ajudar o país. Faça como os americanos: conhecimento; independência; e ajudar a comunidade. Agora está na hora de buscar a independência financeira.”
3- "“Your network is your net worth”
“Por meio de seus relacionamentos, Lemann conseguiu organizar duas viagens de (Luiz) Cezar aos Estados Unidos, para breves estágios no JP Morgan e no Goldman Sachs”
Diversas vezes no livro são citados negócios e oportunidades gerados a partir de bons relacionamentos. O estilo despojado, irreverente e por vezes “boa praça” de parte dos ex-sócios, além de outros personagens (como o próprio Lemann), parecem ter sido determinantes para o desenvolvimento de alguns negócios e a criação de oportunidades ao longo da história do banco. Assim, buscar uma rede de relacionamentos - não só pelo ‘netuorquin’ com pessoas que podem ser úteis, mas buscando ser útil, é um bom meio de geração de valor. “Esteves, que valorizava a ideia de ampliar sua rede de relacionamentos - ainda mais globalmente […] -, sempre se mostrou interessado e disponível”
4- Tenha sócios com habilidades complementares
Quando ouvimos sobre o “Sonho Grande” e a história do Garantia, ouvimos também sobre como os três sócios tinham habilidades que se complementavam muito bem entre si. A despeito de ser calado, Jorge Paulo pareceu ser sempre uma pessoa muito bem relacionada e que inspirava de alguma forma enquanto líder. Sabia contratar boas pessoas (identificar “gente boa”), mas também era ótimo negociador e vendedor. Beto Sicupira é representado como uma pessoa de execução (“missão dada é missão cumprida), a despeito da comunicação dura, enquanto Telles era um exímio operador e tinha ‘sangue frio’ para fazê-lo.
No Pactual, procurar pessoas com habilidades complementares parece ter sido igualmente importante. Quando Luiz Cezar buscou seus sócios, Paulo Guedes e André Jakurski, entendeu que precisava de um economista de qualidade e um trader - que, além de executar a estratégia, fosse muito atento a detalhes. Com a junção dessas habilidades, fundaram o grande concorrente do Garantia à época, o Banco Pactual.
5- “Quem não toma risco, conta a história dos outros”… quem não sabe gerenciá-lo, também
A emblemática frase de Guilherme Aché, sócio fundador da tradicional Squadra e co-fundador da área de research do Banco Pactual, junto a Florian Bartunek, já é, sem dúvidas, praticamente um ditado dentro do nosso mercado. E ditados são ditos que se provam verdadeiros ao longo do tempo - por isso atravessam gerações.
Algumas das grandes tacadas que fizeram o Pactual virar o monstro que é hoje vêm, de fato, de grandes tomadas de risco feitas com a devida diligência. Na época da privatização da Telebras, o livro afirma que o banco investiu mais de 100% do patrimônio em suas ações e também em opções, quando o valor dos papéis passou de US$2 para US$32. No entanto, me parece que o grande jogo foi ter se mantido de fora de operações desproporcionalmente arriscadas, que fizeram o banco passar incólume (ou, pelo menos, menos afetado) às crises. Durante a crise asiática, o Pactual buscou proteger o patrimônio, em vez de buscar ganhos agressivos. Fica marcada uma frase de Jakurski que diz “se estamos perdendo, não aumentamos posição perdedora”.
Em contrapartida, na mesma época, o Garantia tomou mais e mais risco, tendo posições alavancadas em C bonds financiados a curto prazo por meio de operações de recompra, e seguiu mantendo posição a despeito das perdas sequenciais decorrentes da flutuação de mercado. As perdas estimadas com essa operação culminaram, posteriormente, na venda do banco para o Credit Suisse.
6- Seja curioso e obcecado
“Dedicado, (Esteves) passou a ler com avidez o principal periódico econômico à época, a Gazeta Mercantil. Devorava-o no metrô, no trajeto de volts para casa, como se estudasse um livro didático. Anotada as dúvidas e, de segunda-feira à quinta-feira, no fim do dia, sentava-se com Marcos Pinheiro, sócio responsável pela renda fixa, para tirar dúvidas.”
O discurso de “se unir a gente boa e que tenha sede de crescer”, creditado muitas vezes aos fundadores do Banco Garantia, foi uma norma fundadora dos bancos que ajudaram a desenvolver o mercado de capitais nas décadas de 80-90. A expressão popular que diz que a obsessão ganha do talento é verdadeira porque o interesse e a curiosidade, no longo prazo, tendem a gerar um “efeito compounding” que uma pessoa talentosa, muitas vezes, não conseguiria manter (daí o axioma de Malcolm Gladwell no livro Outliers, onde, para se tornar mestre em algo, uma pessoa deveria dedicar proximadamente 10 mil horas). Acredito que a sabedoria dos nossos pais quando nos diziam “procure fazer algo que você verdadeiramente goste” é sobre querer que seus filhos gostem de aprender e se desenvolver no seu ofício - não só porque torna o trabalho prazeroso, mas porque os ajuda a buscar oportunidades.
7- “Cuidado com a guilhotina”
Luiz Cezar, então controlador do banco, começou a ter embates quanto aos rumos do banco com outro sócio. As diferenças de personalidade e de visão de negócio de ambos era nítida e a relação de ambos foi se desgastando ao longo dos anos. Eventualmente, Cezar convocou uma reunião com os outros sócios principais (Guedes e Jakurski), sugerindo que o sócio com quem tinha tido sucessivos embróglios deixar a partnership. Guedes então responde: “Cuidado com a guilhotina. Quando começa a ser usada, não para. Se você usá-la contra ele, ela depois será usada contra você”. A lição é não tão somente de não fazer algo que não gostaria que fizessem com você, mas também de se atentar ao possível risco de tomar uma medida radical dentro do âmbito corporativo - uma vez que, no limite, tem potencial de virar um hábito dentro de uma cultura de empresa.
8- Não se esqueça de quem abriu a porta para você.
Em 2023, no aniversário de 40 anos do BTG Pactual, fez-se uma grande festa para os sócios da história do banco na Hípica Santo Amaro, em São Paulo. Esteves subiu ao palco, agradeceu a presença de todos que estavam ali por fazer parte dessa história e homenageando os fundadores. Dentre eles, Luiz Cezar (o mesmo da primeira lição, que também é o “C” do acrônimo do PACtual) foi ao palco e também discursou.
Diz-se no livro, em bom humor, que Esteves comentou com um sócio ao seu lado: “muito bom, mas melhor a gente ir lá, senão daqui a pouco ele acha que é ele que toca isso aqui”.
O livro mostra, para mim, não apenas algumas das movimentações táticas e estratégicas que fizeram o banco ter a robustez que tem hoje, mas também algumas lições para se tirar enquanto profissional e pessoa atuando neste mercado - vindas da história de pessoas que ajudaram a desenvolvê-lo.
Além disso, por fim, achei essa charge depois de algumas buscas na internet - se algum de vocês souber de onde ela saiu, eu adoraria saber para dar o devido crédito - que é bastante relacionada com o tema dessa newsletter. Vocês reconhecem alguns dos personagens na fotografia abaixo?
Somos mais de 3.900 investidores, CEOs, fundadores, gestores de fundos de investimentos, analistas de equity e crédito, assessores, profissionais de M&A, family offices e fundos de Private Equity e Venture Capital. Entre custódia e administração, esta base de e-mails movimenta alguns bilhões de reais.
Obrigada, como sempre, por dedicar uma fração do seu ativo mais precioso - seu tempo - e ler essa newsletter.
Clara Sodré



Excelente texto, os seus textos são ótimo! Até para quem não é da área como eu e é burro, que nem eu, entendo.
Mais uma aula